Discurso de Ana Guerreiro, Bisneta do Comandante Carvalho Araújo

“Recentemente assisti a um filme e dos belíssimos diálogos fixei estas frases: “O que é a História senão o registo dos feitos de grandes homens? Um homem apenas tem uma vida mas a História encarrega-se de nos recordar a mesma.”

Imaginar a figura de Carvalho Araújo, tombando e agonizando, após ter sido atingido pelo estilhaço de uma granada não é fácil para mim. Apesar de ter nascido 53 anos após a sua morte, sempre senti uma forte ligação com este homem, meu bisavô.

Não pelo estatuto de herói, não pelo facto de ter tomado parte num dos mais mencionados combates históricos portugueses, mas pela sua forma de estar, pelos seus ideais. Admiro-o por aquilo que foi, pelo seu carácter, não por aquilo que fez ou por aquilo que teve, porque aquilo que teve, qualquer um poderia tê-lo, aquilo que fez, qualquer um poderia fazê-lo, mas ser como ele… ninguém jamais poderia sê-lo!

Desde pequena, sempre me habituei a ouvir histórias que a minha avó e o meu pai me contavam. Não seria portanto, de estranhar, que, ao contrário dos meus amigos, eu tivesse um herói muito real.

Foi este Herói que me inspirou, que me guiou e me fez encontrar o caminho. Cada detalhe novo sobre a sua vida era uma nova inspiração. E essa inspiração foi crescendo até se tornar num projecto de vida. Este é o meu projecto de vida.

O meu bisavô, na sua ausência física, está presente neste momento. Vejo em cada um de nós, familiares, colegas de profissão, entre outros, uma pequena fração da sua imagem. Os fragmentos de recordações das suas palavras, dos episódios da sua curta vida, dos valores por ele transmitidos, publicamente ou em particular, reconstrói e renova a sua pessoa.

Hoje é, por isso, um dia de saudade. A saudade faz-nos lembrar actos e gestos com um misto de tristeza e de sorrisos e algumas pessoas partem e deixam um leve rasto da sua presença. Mas não o meu bisavô. Ele marcou de forma contundente a sua presença entre nós. Seja nos artigos que deixou escritos, seja nos discursos que proferiu, seja no seu acto heroico, seja nos valores que transmitiu aos filhos, amigos e colegas.

Por isso, Exmºs Senhores hoje é também um dia de reflexão. Inclusive para mim. Quase cem anos depois da sua morte, consigo examinar, com algum distanciamento, a herança que ele deixou e que me serve de referência.

Herança que não é feita de bens materiais, em relação aos quais foi sempre desprendido. Mas dos valores, da rectidão, da dignidade e do aceitar novos desafios, aos quais nunca virou a cara. Era amigo no trato e generoso nas palavras e gestos. Ensinou os filhos a serem modestos na sua apresentação pessoal e respeitosos em relação aos outros. Mas também a nunca abrir mão da sua ambição intelectual e da perseverante busca pela excelência pessoal e profissional. E da crítica social.

Ele foi, nesse sentido, exemplo vivo das suas convicções. Soube, em inúmeras oportunidades, colocar o dever acima do querer. Procurou enfrentar as circunstâncias sem abrir mão dos princípios, ainda que, por diversas vezes, tivesse que pagar um preço por isso.

Hoje, enfim, é um dia de alegria. Enaltecer a memória do meu bisavô é glorificar o engrandecimento da Pátria independente e livre, ideal que sempre o norteou, é recordar para além do heroico marinheiro o apaixonado defensor da democracia.

Orgulho da sua Pátria como marinheiro, modelo de cidadão como republicano, tinha um carácter impoluto.

A ideia de criar um organismo oficial ligado à figura de Carvalho Araújo remonta a 2004, quando começei a preparar o Projeto Carvalho Araújo – A Vida pela Pátria. Entendi na altura, que a par deste projeto, seria necessária a criação de uma entidade que promovesse não só a figura do Comandante José Botelho de Carvalho Araújo mas que desenvolvesse acções de acordo com os seus princípios e ideais.

Mas a Associação Comandante Carvalho Araújo ambiciona mais: Queremos contribuir para enaltecer o nosso país enquanto nação. Queremos mostrar aos jovens de hoje e do amanhã que podem e devem orgulhar-se de serem portugueses. Portugal é apelidado muitas vezes enquanto “país de poetas”: Os Lusíadas são a prova viva de que somos um país de heróis!

E se o meu bisavô foi um Herói, não podemos jamais esquecer a guarnição que lutou ao seu lado na sua derradeira missão. Alguns deram também a vida. Outros sobreviveram. Mas todos fizeram história. Todos eles foram Heróis! E é com enorme orgulho que temos aqui presentes familiares de vários tripulantes do Augusto Castilho. E é uma honra poder contar com alguns enquanto membros desta Associação. E a todos eles agradeço pelo apoio, por estarem hoje aqui connosco.

Projectos como os Cadetes do Mar, hoje aqui presentes, são o exemplo vivo de que podemos contrariar as evidências. Podemos mostrar ao mundo que estamos vivos e que os séculos da nossa história demonstram bem aquilo que o nosso Hino diz: Heróis do Mar, Nobre Povo, nação Valente, Imortal. A tradição portuguesa é a herança ímpar de bens culturais, costumes e tradições de um país com mais de 800 anos de história.

Neste sentido, convido todos aqueles que se identifiquem com os nossos princípios, com os nossos ideais, a associarem-se, apoiarem, divulgarem e contribuírem, dessa forma, para que possamos levar a bom porto um objectivo que pretendemos que seja comum: Dignificar a nossa pátria, honrar aqueles que com esforço e abnegação levaram o nome de Portugal mais além.

A constituição desta Associação não teria sido possível sem a colaboração, estímulo e empenho de diversas pessoas e entidades, civis e militares. Gostaria, por este facto, de expressar toda a minha gratidão e apreço a todos sem excepção que, direta ou indiretamente, contribuíram para que este sonho se tornasse uma realidade.

Um agradecimento especial à Comissão Portuguesa de História Militar e ao Senhor Coronel Banazol pelo apoio e cedência do magnífico Salão Nobre.

A todos os membros da Associação, agradeço por terem aceitado e respondido tão prontamente a este desafio.

Por fim quero agradecer à minha família, em especial ao meu marido e aos meus filhos pela paciência, apoio, carinho e dedicação e por nunca me terem deixado desistir deste sonho ao longo destes 12 anos.

Ao meu pai, onde quer que esteja, quero dizer-lhe que os sonhos são possíveis para aqueles que têm coragem.”

 

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Ana Guerreiro, bisneta do Comandante Carvalho Araújo

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