Discurso do Presidente de Direção, Comandante Vale Matos

“No início do presente mês, quando me encontrei pela primeira vez com a senhora Ana Guerreiro, bisneta do Comandante José Botelho de Carvalho Araújo, e ela me convidou para presidir a Direção da Associação, perguntando se teria disponibilidade para tal, foi algo com que não contava. Talvez por despreocupação minha e por me encontrar há já mais de cinco anos afastado da efetividade do serviço na Marinha. Não pude deixar de lhe responder que tinha acabado de assumir um compromisso que me iria limitar ainda mais a minha já reduzida disponibilidade temporal, mas que, no entanto, iria ser muito difícil dizer que não à sua proposta. Para além do que para mim significa “Carvalho Araújo”, como exemplo e elemento simbólico agregador de um grupo de camaradas com quem partilhei um período único da minha vida, repleto de gratas e especiais recordações, enquanto cadete e aspirante da Escola Naval, percebi muito claramente nas suas palavras o quanto dela ela punha, e estava disposta a colocar, neste projeto. “Este é o meu projeto de vida”, referiu. Pedi ainda um par de dias para lhe dar uma resposta final, mas saí sabendo qual iria ser, quase inevitavelmente, essa resposta.

Coragem e o culto dos heróis. Temas fortes ligados à imagem de Carvalho Araújo, e que ressaltam do que acabámos de ouvir. Ligados a Carvalho Araújo e necessariamente ligados à Associação que o homenageia. A ação fundada em valores. A coragem, não como destemor gratuito e estéril, mas sim como a prova mais exigente da integridade; o fazer aquilo que se acredita profundamente que deve ser feito, mesmo sabendo bem os danos pessoais que de tal para nós pode advir. Aliás, coragem especialmente quando sabemos bem o elevado custo desses danos; pois é exatamente esse elevado custo que nos dá a verdadeira medida do valor que atribuímos ao bem que defendemos. O aceitar perder tudo o resto, incluindo a própria vida, por algo que se acredita ser maior, não esperando absolutamente nada mais em troca, essa é a prova máxima do valor que se dá àquilo que se defende. Não em meras palavras, mas em atos. Não apenas em guerra, mas em paz. Não apenas nos grandes atos, mas começando pelos mais pequenos.

Carvalho Araújo foi político e militar. Foi deputado à Assembleia Nacional Constituinte, pelo concelho de Vila Real e, mais tarde, deputado do Congresso da República Portuguesa. Como político defendeu a participação de Portugal na 1ª Grande Guerra. Como militar, participou na mesma guerra e, ao comando do caça-minas “Augusto Castilho”, em missão de escolta ao paquete “S. Miguel” para os Açores, quando confrontado com a necessidade de proteger este navio do submarino alemão U-139 não hesitou na ação, mesmo sabendo inequivocamente o risco em que incorria. A entrega pessoal a bem da comunidade, da nação. As crenças, valores, palavras e atos em uníssono. O honrar dos compromissos assumidos. Cidadania, Integridade, Lealdade. Valores na base da ação de Carvalho Araújo e que a Associação defende e se propõe promover.

Não pretendemos idolatrar ninguém. Há que não confundir homenagem com idolatria. Carvalho Araújo era um homem e não seria certamente perfeito, como aliás me arriscaria a dizer que ninguém o é. Mas o que nos interessa é partir das suas forças, do seu exemplo, para construir, em conjunto, um futuro partilhado melhor. Carvalho Araújo como ponto de partida, próximo e fonte de estímulos positivos para as mais pequenas ações, e não Carvalho Araújo como ponto de chegada, distante, inacessível. Um ponto de partida que é simultaneamente um farol, começando por reconhecer a dignidade de cada um, o seu valor intrínseco, e que alumia a ir mais além. Mais além, traduzindo em ação a capacidade humana de sentir o infortúnio dos outros e de fomentar a sua superação, desejavelmente encontrando aí também uma fonte da sua própria felicidade. Enfim, o contributo para o bem comum de acordo com as nossas possibilidades. Nossas, de todos nós, incluindo aqueles a que nos conseguirmos ligar e que queiram também contribuir para este propósito comum.

Pretendemos uma Associação de atitude aberta à diferença, novidade e mudança, acolhendo e estimulando a riqueza inerente à diversidade. Não uma Associação focada em posições fechadas, mas sim em valores e interesses partilhados. Que não acabe na Pátria, mas parta dela para outros mundos; pois que para melhor nos relacionarmos com os outros é bom que comecemos por nos conhecer a nós próprios e que nos sintamos bem com isso. Reconhecendo as nossas forças e margens para progresso. Sabendo e aceitando que somos uma Associação pequena, talvez apenas uma gota de água, mas que muitas gotas de água ligadas formam oceanos.

Tudo isto é na essência aquilo que pretendemos que esteja na base da ação da Associação Cte Carvalho Araújo. Cidadania, Dignidade, Integridade, Lealdade e Solidariedade, como valores. Abertura, Diversidade e Agregação de Forças como orientação para ação.       

Conforme definido nos seus Estatutos, a Associação tem como fim:

– Promover a figura do Comandante José Botelho de Carvalho Araújo, homenageando-o, bem como à guarnição que o acompanhou no cumprimento da sua derradeira missão e a todos aqueles que lutaram e morreram pela Pátria;

– Tendo por base os valores, ideais e exemplo do Comandante Carvalho Araújo como militar, marinheiro, político, jornalista e cidadão, a Associação pretende promover, patrocinar e desenvolver um conjunto de projetos e iniciativas — incluindo parcerias com outras entidades — de cariz social, cultural, histórico, arqueológico, ambiental, turístico, científico, académico, educativo e desportivo, que alcancem um público diversificado.

A nossa missão envolve, em particular, vertentes fortes no âmbito da ligação de Portugal ao mar, e da sociedade às Forças Armadas,  incluindo o estimular, particularmente nas gerações mais jovens, do culto de uma prática assente em valores e de uma liderança baseada no exemplo da ação individual.

Em termos da nossa atividade em concreto, e após organização inicial das estruturas elementares de funcionamento, a Associação tem para já três tipos de prioridades: de natureza relacional, operacional e programática. Assim, estamos:

– A prosseguir contactos tendo em vista a criação de parcerias e protocolos de cooperação;

– A realizar diligências de âmbito comunicacional e logístico, designadamente no que respeita à implementação e sustentação do website da Associação, bem como à busca de uma possível solução para uma mais favorável localização da sede e espaço para a realização de reuniões, atentos os parcos recursos financeiros de que uma organização sem fins lucrativos como a nossa dispõe; parcos recursos financeiros que têm o aspeto positivo de termos de “fazer pela vida”, procurando soluções geradoras de receitas através da criação de valor para os nossos associados, parceiros e para a sociedade em geral;

– (Estamos ainda) a desenvolver um programa trienal, integrante de vários projetos articulados e atividades, em que, anualmente, as datas de 18 de maio (nascimento de Carvalho Araújo) e de 14 de outubro (combate com o U-139) atuam como marcos de especial relevância para eventos, culminando no dia 14 de outubro de 2018, dia do centenário do referido combate.

Enfim, desafios não nos faltam, mas ânimo também não. E como aprendemos a dizer na Marinha: “Se fosse fácil, estavam cá outros!” Serão certamente as pessoas que estiverem envolvidas nesta obra, que determinarão o seu destino. Para já, quero agradecer a todos os que nos permitiram chegar aqui e aos que já se disponibilizaram para levar por diante esta visão, que sendo inicialmente apenas o sonho de alguns, queremos que, através da necessária congregação de forças e vontades, se torne na realidade ambicionada e partilhada por todos. Porque todos juntos não somos demais. Por isso mesmo, gostaríamos de poder contar com todos. Muito obrigado. ”  

 

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O Presidente de Direção da Associação Comandante Carvalho Araújo com Sua Exª. o Chefe de Estado-Maior da Armada

 

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